sexta-feira, 18 de maio de 2012

zoom in


o cobertor de escanteio
só para sentir o frio
buscar a perna
quente
e a boca
mais
tudo por inteiro
e tão
e tanto
um disco na vitrola
um vinho mais gelado que lá fora
e a varanda que mais parece um jardim secreto
no muro da rua abaixo um escrito
descascado
uma memória silenciada
a dor já foi 
não volta, meu bem, 
não volta não
ah, saber cuidar das plantas é bom sinal do coração 
é escolher caminho com tempo bom
seu corpo amanhecido
pão quentinho no abraço entrelaçado
nos meus olhos
o rímel que esqueci de tirar
tudo que eu sinto
também está
o moço lá fora veste um manteau parisiense 
atravessa a esquina e
talvez peça  um whisky para esquentar
nos meus olhos faz sol
aqui é verão
e em você

amor, 
Amor é a melhor lã 

sábado, 5 de maio de 2012



natureza calma. água em ebulição.tudo muito quente.intimidade com gosto de suco de uva.frio só lá fora.infância compartilhada.coxas quentes.paredes ainda frágeis. pele rabiscada.boca dada.peito exposto.vício.coração, carne, cogumelos, chocolate e tudo que sacia.casa antiga que não diz mais. uma vista para o azul. é bonito tudo e de vez e quando um pouco triste. mais do que muito bom. sempre. sol forte já quando ele nasce. honey. língua. aquele vinho de amoras do dia anterior. olhos tapados e uma fenda. espaço.um fenda que dá em outro lugar.além aqui.muito além lá.


No guardanapo: 

Até hoje tudo tem sido mais inteligente do que nosso próprio controle.
Querido, 
é vida, 
e acontece
,

segunda-feira, 2 de abril de 2012



acorda e vê que tudo tem menos interrogação. o retorno. a saída. pensamento que frequenta a casa vazia. eu e você.


cuidado.
as paredes trazem boas respostas. 




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Daqui a cinco minutos ela deixará de amar de você



Pensou em fazer um discurso amoroso com todas suas inquietações fragmentadas. Nunca falara o que importava porque ainda não tinha se dado conta do que realmente importava naquele encontro. Enquanto se mantivesse nublada (e ela perguntava se manter-se nublada já não era uma própria escolha involuntária) as palavras continuariam sem coerência e falhas – palavras em algum momento não são falhas? Falhas e pretenciosas, achando que dão conta. Onde andava a amizade costumeira dessas palavrinhas, sempre tão aguçadas e fiéis a tudo que berrava dentro daquela moça de cabelos muito compridos e cada vez mais pouco claros, aquela moça que virava sempre a esquina, depois do meio dia, pensando na frase ideal para escapulir e  trazer solução à sua agonia latente. Na rua perto de sua casa um muro e a frase, com letras tortas e semi-apagadas: “E o amor afinal é uma escolha?". Entrava num vácuo ao pensar em quantos mantinham uma adolescência tardia e desenfreada para justificar a permanência daquilo que não conseguiam transformar somada à ilusória manutenção do slogan “quanto mais me querem mais acredito que existo”. Os encontros estão fragmentados, pensava ela, ainda sem dobrar aquela esquina, ainda sem  ter os cabelos completamente escuros e ainda sem chegar à pergunta alguma. Aquilo que era preciso ser dito era regurgitado há dias e agora nem mesmo o seu desejo era claro e isso a apavorava secretamente, porque sem desejos claros deixaria a si própria à mercê, à mercê dos desejos do outro. E afinal? Como se diz algo sério, muito sério e verdadeiro, quando não se sabe nem ao menos onde se quer chegar com essa seriedade toda que ensaia escapulir? A seriedade não trazia urgência. "Toda urgência é imprudente" dizia um psicanalista na revista jogada sobre a mesa da sala num domingo não tão qualquer. Talvez, essa fosse a razão da sua falta de um discurso amoroso. Talvez, não tivesse nada a dizer, e também talvez  achasse inútil querer dizer algo sobre aquilo. “Ainda querer dizer algo sobre aquilo” seria sempre apenas uma tentativa de salvação, uma deixa na busca para ouvir do outro “não há de ser mais assim”, acreditar nessa oração seria uma invenção que permitiria que ela continuasse ali, presente numa história desconfiada. Toda semana dava a última chance a esse desejo de tudo mudar e mantinha-se observadora dessa história enquanto a achava cada vez mais uma história banal (e por um instante ela se perguntava: o que não corresponde aos nossos ideais se torna automaticamente banal?) ah, como ela arranjava perguntas que a auxiliavam na manutenção dessa farsa. Afinal manter-se numa história irremediável, como se tudo um dia  pudesse corresponder às suas expectativas não seria uma farsa permitida? E justamente ela que discursava com maestria sobre encontros, construção e falta de conexão entre o que é banal e o que é um encontro. No exato instante da despedida, ela ouviria Just in time com a Nina Simone e sobreviveria, imune. Nina Simone lembrava força. Ela pensava que fazer um discurso amoroso seria a morte da liberdade que reside nesse "fingir que nada se vê" para continuar tornando-se possível e adaptada àquela situação- e desde quando manter-se cega ou adaptada é liberdade? Olhava-se por um tempo pela janela embaçada e flagrou-se usando a palavra amoroso. Depois lembrou da amiga tão doce, sentada no sofá da varanda dizendo-lhe que ela era uma pessoa tão amorosa e cuidadosa com o outro e porque andava procurando situações onde não podia ser assim.  Ela tinha mania de pensar em discursos sobre os fins. As maneiras mais belas de se dizer não, de se dizer adeus, de dizer que acabou, que sim aquilo é um fim, mas que também é bonito como um começo- porque essa mania da tristeza ser pesada, aliás já reparou como as cores ficam lindas quando a gente está triste? Sempre pensara assim: em vez de falar acabou, ficaria tão mais bonito se dissesse: Hoje quando acordei e te vi tomando café perto da janela, o sol pouco forte, olhei para suas mãos segurando o jornal, olhei pra mim e percebi que tinha acabado. Nosso amor acabou hoje ao meio dia e a gente continua acordando tarde acreditando que nossos sonhos baterão bem na nossa porta. O meio dia a partir de agora não existirá. Depois ria de si e autenticava sua cafonice. Amava ser cafona. Ah, se voce for embora por favor não vá. Era uma letra de uma música que tinha vontade de gritar, se aquele amor fosse o maior amor do mundo. Mas não era e nunca tinha sido.Valia a pena ir embora. E valia a pena de ir embora.
Ali esta a esquina, a sua inquietação e a pergunta não escapulida. Há tempo ainda de não ser. Faltam cinco minutos para ela deixar de gostar de você. A esquina está ali na frente e ela dobrará como se não houvesse mais perguntas sobre o irremediável.  A cura não são os outros, pensava enquanto escapa com vida, ilesa. "eu acredito em nunca mais", pensava mais uma vez antes de. Dobrou a esquina e deixou um recado escrito no papel de pão francês: “Faltam 5 minutos para ela deixar de amar você”.




 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

de Novna para Jiveli










Uma montanha na Croácia, 22 de Abril de 2010.

Minha querida,

O outono começou aqui na montanha e faz um frio de inverno há dois dias. Acabei de jantar aquela receita de beringelas eslavas que fazíamos quando chovia e eu matava aula no colégio. A rua está silenciosa e há um tempo enorme passando por aqui agora mesmo. Enquanto te escrevo meu coração bate, uma árvore cai, um casal terá um bebê, a fotografia de uma tragédia revolta, uma poesia salva, o vizinho chega irritado, o metrô está lotado, um muro cai, tropas obedecem ordens de ataque, o despertador toca, alguém se salva, alguém faz super-mercado, alguém não faz super-mercado, eu não escuto o telefonema que estava esperando desde ontem, alguém se perde, a menina que ele gosta volta de viagem, alguém faz mais um amigo no facebook, alguém busca, alguém encontra, alguém encontra de verdade. A Lua, que não está mais cheia, ainda ilumina a minha pele e eu olho os castiçais acesos e lembro de nós. Meus dias não tem sido tão fáceis como a gente gostaria que fossem aos vinte e poucos anos. Quando tudo fica insuportável, confesso que dou uma escapulida do que estou fazendo e compro aqueles biscoitinhos de chocolate belga em forma de coração. É uma tentativa de lembrar que tudo sempre pode ser assim, doce como um chocolate belga e vivo como um coração. Ontem antes de dormir, me olhei por um tempo naquele espelho rosado que era da vovó. Nessas incoerências e imperfeições  que chamam de cotidiano, minha imagem ali refletida e eu no meu contínuo exercicio de ser destemida de mim. A estação mudou e o outono me parece propício para deixar ir embora o que não me pertence mais. Outro dia meu horóscopo dizia que a escolha mas sábia talvez seja aquela em que decidimos o que queremos perder. Na hora não entendi muito. Ontem pensei que seria bom plantar algumas mudas na minha janela, aquela vermelha da sala. A casa ficaria mais colorida e talvez me ajudasse a compreender mais os ciclos, os inícios e as despedidas. Quero sempre estar assim, leve como uma casa com jardim, radiante como uma manjericão fresco que acaba de brotar. Hoje, lhe escrevo para pedir desculpas pelos meus choros desesperados, antes que você fale que minhas desculpas não são necessárias, me precipito em dizer que peço desculpas por uma necessidade quase egoísta de me redimir comigo mesma. Talvez, essa necessidade, de auto–redenção seja o primeiro passo para uma real transformação. Quando a coisa se torna impossivel, intolerável para nós mesmos, é quando começo a vislumbrar que tudo já  está mudando. Sim, eu estou mudando.Peço desculpas pela minha confusão diária, por querer dar conta de tudo, por não me posicionar com medo de perder, por de vez em quando sorrir em público o que não sorriria sozinha no meu quarto, pelo minha insegurança escondida nas danças em festas que eu nem queria estar. Tenho pensado muito no agora e de como ele sempre é e já não é mais. Não sei  se foi  depois que  me despedi daquele moço ou se foi quando comecei a olhar mais o mar, que vi o quanto mantinha as coisas pelo prazer,pela distração e por achar que ainda sou jovem o suficiente para dar espaço para as coisas insuficientes.E agora não. Não quero mais depositar nenhuma energia em algo que seja irrelevante.Não faço mais questão de distração para acobertar a raiz da coisa em si. Em qualquer lugar em que você me encontrar agora eu estarei investindo. Pode ser uma situação, alguém, um lugar, ou mesmo a planta do meu novo jardim. Não estou em mais nada por estar. Quero ser minha guia, minha auto-estrada, ser decisão diante de qualquer bifurcação. Estou colocando todos meus movimentos em conexão, chega desse pique-esconde dos meus reais desejos. Vamos brincar de outra coisa? Hoje para mim também é ano novo. Me olho mais uma vez  no espelho rosado da vovó e afinal o que quero é mesmo intenso?É desejo profundo? Vem do meu centro? Cadê minha bússola pessoal? Me desfaço de todos esses traços que me trazem atrasos. Morro e crio espaço.Fica o necessário.Hoje libero da minha essência mais escondida a coragem de enxergar.Tenho urgência de ser inteiramente o que sou. Quero percorrer essa larga estrada que se apresenta, encontrar com o outro, realizar o outro, realizar a mim como outra. É pela diferença talvez que nos tornamos tão parecidos, não é mesmo? E quando alguém revela o que sente lá no fundo, meu coração pisca, me comunico, eu também sinto e sinto tanto. O que nos une? É nesse território que quero passear.Um pouco antes de te escrever, fiz uma lista lista de tarefas diárias, vê só.

-reinventar alguma coisa.
- improvisar um jantar.
- achar alguma solução dentro de mim e botar pra fora.
- reorientar o meu olhar sobre tudo.
- brincar com a minha exclusividade
- produzir um pequeno milagre.
- dizer o que eu penso com objetividade e delicadeza.
- arrumar o armário
- comer menos chocolate e descer menos na padaria para comprar inutilezas.
- remarcar a conversa com a amiga que me machucou.
- quebrar uma casquinha de iogurte congelado.
- nunca mais finjir que não vi.
- ir num lugar na minha cidade que nunca tenha ido.

Pode ser besteira, mas toda vez que eu abrir a porta da minha geladeira, lugar estratégico  já que faço isso mil vezes ao dia, vou lembrar de cuidar de mim e do mundo. Te amo tá? E sinto saudades todos os dias. Confia em mim. Tudo isso que nos distancia vai passar.Eu tenho um sorriso e tenho  coragem. Quando você voltar, o jardim da minha janela vermelha já vai estar crescendo, provavelmente será início da Primavera e se ainda não for a gente inventa. A gente sabe fazer isso bem. Antes de terminar minha carta, fecha os olhos e lembra de quando eu era bem pequenininha e dançávamos com os vagalumes como se estivéssemos no céu. Tenho feito isso todas as noites antes de dormir. Me ajuda a estar com você. Prometo que não vou mais chorar assim. Sabe de uma coisa? O tempo não é o limite. O espaço não é o limite. O que a mente crê. As asas fazem.


Um beijo
sua filha
Novna

segunda-feira, 20 de junho de 2011

maria do bairro





Manhã. Maria está muito pálida, em pé, com frio e batom vermelho - muito vermelho. 


- Eu tenho uma coisa muito importante para te dizer. Na verdade, durante todo esse tempo, sempre tive algo muito importante para te dizer. Minha dificuldade é perceber a brecha que há, se é que há, em todos esses nossos infindáveis diálogos. Quando será o Big Bang do "nunca dito"?  Talvez, toda essa ausência até agora, tenha sido uma tentativa de preservação, para não nos deixarmos vulneráveis a mediocridade que é colocar em palavras um encontro. A verdade é que sempre que fujo, vou por medo de ser precipitado ficar. Escute, você ainda está perto? Aqui, em mim, todo esse não visível, há. E muito. Eu gosto de você. 


(silêncio)


Agora sempre é uma esquina inesperada no meu roteiro e sempre me obrigo a saber o que fazer com isso. Estou imóvel nesta travessa desconhecida e não quero mais escapar. A minha exaustão não deixa de ser uma espécie de salvação. A minha salvação.







quinta-feira, 26 de maio de 2011

instante despreparado

                                                           
Dubrovnic,manhã com sono de algum dia de gêmeos.

Querida,
Aqui a vida passa breve. Hoje não chove e eu choro. Eu e minhas incoerências com a natureza não é mesmo? Como é difícil largar tudo isso que estamos acostumados a ser em excesso. Eu queria hoje viver alguma coisa extraordinária bem no meio de um segundo despreparado. Qualquer coisa simples,que derrubasse a sensação do medíocre que reside em cada instante com cara de meio dia, em cada trânsito esperado, em cada beijo automatizado, nesse amor mofado de costume,no presunto com queijo, nesse tanto que tanta gente chama de cotidiano e eu chamo de morte. Poderia ser um concerto no meio de uma mata atlântica improvisada num jardim, uma corrida na praia com vento, muito vento e a sensação de que tudo está a caminho, poderia ser você aparecendo de surpresa no meio do jantar(que hoje seria só chocolate), um esbarrão com um marinheiro de outro porto, que me mostrasse um objeto de algum naufrágio antigo e que me re-confirmasse a sensação boa que é ser sobrevivente ou simplesmente tivesse um aroma escondido no bolso, um novo benjoim,que me desviasse a noite para outra direção. Às 16 horas vou engolir o café já quase frio e vou comprar no mercadinho um palmier de coração recheado com chocolate. A minha constante tentativa de engolir tudo que não seja angústia e de lembrar, mais uma vez, que tudo pode ser doce, doce como um palmier de coração.Quero deitar agora na grama, sentir o frio de inverno com estrela e te contar qualquer coisa boba e fútil, como por exemplo meu trajeto até chegar em casa hoje. Falar uma besteira enorme, comer pão quentinho, esperar a madrugada e dividir muitas taças de vinho porque amanhã não tem pressa. Por que todo o amanhã tem tanta pressa? Eu, se fosse possível parava o tempo para viver o vácuo com você, seria isso meu maior ato de cumplicidade? Depois,certamente, eu voltaria mais forte para tudo isso que não me comove e  te deixaria com um presente do oriente e uma flor com raiz. Nunca me esqueci daqueles lírios,laranjas e sem raiz que ganhei daquele moço, lembra? Com certeza sim, afinal você quem descobriu tal façanha da planta.  E eu? Que chamava aquilo de amor - aquela beleza toda sem raiz. Meu deus, quanto tempo demora para a verdade virar vida? Acho que hoje não tenho nada que precise contar mesmo, então enfilerei um monte de palavras para justificar a ausência de notícias e a minha saudade mansa. Sou um boba incurável,quero viver só de amor e suspiro,quero todo dia com lua cheia,fogo e com excesso.Há 16 anos, numa quarta feira,eu me vestia de de tule e purpurina, comia fruta do pé, ouvia o LP do vovô,saía rolando pela grama e achava que vida era isso. Será que é um problema ainda achar que vida é isso?
Estou tentando acordar, juro que estou, mas a cama me chama.O café já está apitando e talvez eu tenha vontade de deixar ele queimar.As notícias do jornal não são nunca boas.Estou atrasada e sempre te amo.

um beijo

sua filha
Jadranka

quinta-feira, 19 de maio de 2011

um tanto de nada daquilo.




É preciso que o tempo voe mas que a vida não passe assim.

O tempo alterna entre botas pesadas de guerra e pés descalços de sílfide.
O tempo é um andarilho, um vagabundo que só faz isso. Ir
Tempo é despedida.
Sempre.


agoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagoraagor


                       e agora sempre não é mais e é de novo. onde o agora existe?

terça-feira, 26 de abril de 2011

távola redonda


O tempo não te fez uma surpresa. O tempo não te fez favor algum. O tempo urge e você estático contempla os instantes como se eles fossem alguma espécie de sereno. Instantes molhados que te encharcam. Pingos que te imobilizam. Instantes pregos pontiagudos arranham tua pele e abrem teu coração pra fora. Tudo de repente é jorro. É vermelho. É terra suja. Você está perto do meio fio considerando alguma coisa que nem você sabe o que é. A nuvem que passa é movimento do planeta e isso naturalmente não te faz andar. O ponteiro do seu relógio tenta captar os instantes. O relógio é uma tentativa absurda de organizar esse esgarçamento todo. Esgarçamento das estações e da pele. Da sua pele. Você não viu nada. Não ouviu nada e nem soube por onde ela andou. Seu estômago está faminto e seus olhos esbugalhados. O cachorro ao teu lado rói um osso que quase já é pó. Os instantes continuam serenando e você passivo puxa a calça para cima enquanto diz que  luta e nem sabe pelo quê. Você é um arcano maior do tarot que não tem número. Você ainda tenta ao menos viver a sua maneira. Seu melhor amigo hoje casou e não quis você lá.  A mulher que você um dia "gostou" porque nunca dirá que amou, não admira mais a sua forma de contemplar a ausência.Você continua a espera como se amanhã fosse sempre uma promessa de Sol, só por ser obviamente outro dia que não hoje. O mundo não te movimenta e você o culpa por ser rápido demais. Seu dia já não tem 24 horas. A passagem das folhas do calendário do açougue que você frequenta não é prova alguma de avanço e nem de que você gosta de carne. O seu sapato está com a sola rasgada. O rádio do carro parado ao seu lado toca Caruso. As contas da sua casa nem chegaram altas porque até hoje não é você quem as paga. Você agora tem um desejo. Apenas um. Um licor aromático da terra cinzenta que seu pai morou. Ah você também tem direito a uma pergunta. Uma única pergunta. Já sabe qual? Seu amigo ponteiro irá marcar exatos 3 minutos para uma decisão. Isso foi uma oferta do tempo. Uma oferta estilo Casas Bahia que te dá a chance de enquanto tudo é vermelho, é ferida, é rasgo você ter uma ação, um verbo com alguma conjugação que mude o rumo de tudo. Você está ali parado mas a coisa em si parece estar acontecendo. Mas não está. O formigamento dos gomos cerebrais acelera atrás de um questionamento maior. Não. Mentira. Você já não questiona mais. Onde mora a sua outra parte. Que não nesse chao árido, vermelho escarlate. Você está ensaguentado e não vê. Você bebe uma cerveja e convence muito bem os outros a tomá-la, acreditando que poder de convencimento  é carisma. Onde mora o amor. Você é um moço comprido. De cabelos castanhos avermelhados, olhos amêndoados e a barba sempre feita. Ou sua barba é grisalha nos seus vinte e muitos anos mas ninguém percebe isso muito bem? Seus olhos, sim, são grisalhos.Você tem ainda um minuto e meio para uma pergunta. O sereno está mais frio. Seu estômago contrai. Você sabe o que é úlcera? Não, esta não pode ser uma pergunta. O que te move? O que você espera por debaixo da chuva fina e do ponteiro que anda atrás dos números na tipografia times new roman. Amor só se for faminto,
mesmo saciado 
têm estomago vazio e pede o mesmo prato. Essa era sua frase preferida.  Você já se deu conta da sua morte de hoje? você sabia que todo dia você deveria se despedir de algo que não te serve mais? Seu estômago contrai e você nem sente mais. Cadê a sua pergunta. Onde está o seu desejo. Toca caruso mais alto. E mais alto.Una furtiva lagrima. Uma buzina dispara e o alarme do prédio vizinho também.Sua cabeça dói. O tempo não te ajuda. Socorro. Você gritou socorro? Não, desculpa foi um engano. Você está olhando para frente. Você segura a calça rasgada e vê seu coração bombeando sangue no pouco de terra que tem abaixo dos teus pés. Ainda há terra e ainda há você. Ainda há você. Ainda há carne na geladeira. Talvez ainda tenha verbo. Cadê a sua pergunta? Talvez tudo isso aqui em pontos e frases curtas seja uma única pergunta. Talvez  esse tempo esgarçado enquanto te olham seja uma pergunta. Seu coração quase desenha a linha do horizonte, é uma planície que bate? Ainda bate? Não há mais elevações, seu coração não é um terreno acidentado. E afinal é vida aquilo que existe sem acidentes? Há existência sem arranhões? Onde há existência quando não há verbo?
A ausência de perguntas é a morte - disse o trocador do ônibus  que acabou de passar perto do meio fio onde há pouco você considerava alguma coisa. Alguma coisa que nem mesmo você sabe o que é. 


quinta-feira, 24 de março de 2011

BUDA-TE

Sabe de uma coisa? 


O tempo não é o limite. 
O espaço não é o limite. 
O que a mente crê.As asas fazem.

terça-feira, 15 de março de 2011

Gulag ou as asas que moram num sapato


ler e ouvir ( se quiser) - Gulag-Beirut


ela era feita de miudezas. continhas brilhantes sobre a mesa.purpurina colorida dentro da caixinha comprada na antiga pérsia. um pequeno pinguim de geladeira para um dia enfeitar uma geladeira anos 50. um anel quebrado misturado com o dinheiro dentro da carteira. um colar de pimenta pendurado no varal. um pingente oco em contorno de coração. uma frase escrita na quina da parede branca. um chapéu dentro do armário. um tecido manchado de café. um lencinho para acenar da avó que só conheceu por fotografia. um sentimento esquisito dentro da gaveta. a gaveta muito aberta e precisando pintar. o armário bagunçado. uma camiseta, única e vermelha, dobrada. um inverno inventado dentro do quarto. um livro melado de doce dentro da bolsa. um papel rasgado e guardado. uma sanfona longínqua.um amor não revelado. a vontade de pegar um trem e viajar por todo o leste. viagem com vento. muito vento.o colar de pérolas barrocas no pescoço. a maciez das pernas entrelaçadas na madrugada. vento.muito vento. a sensação de respirar e tudo ser tão pequeno. o coração desperto na bagagem. o mundo em relevo na tatuagem que precisa ser retocada. um caderninho-inho-inho bem inho abarrotado de desejos em letra maiúscula. um cadeado de cobre da turquia. uma lâmpada de alladim que a madrinha deu. a certeza correspondida. a faísca do isqueiro bic. as mãos firmes. a sala amarela. o cinzeiro cheio de tudo que não é cinza. a ausência da mãe. o japão e a tragédia maior que tudo. a gota de suor e o perfume de tempero que vem da cozinha. a conta de gás e do telefone que veio alta. a história da ervilha que diz que o que há de ser traz força. o pensamento na folha de papel jornal. a chuva do lado de fora. a certeza de que um tempo se foi e do resto de tudo que ainda vem. tudo que vem agora. e vem sempre . o agora que vem sempre e então agora é infinito. a certeza do infinito que reside num aqui.a simplicidade da orquídea que se pensa violeta no jardim. a orquestra que é um coração acelerado. a velocidade que existe na palavra alegria e a lentidão que existe em toda felicidade. a vontade eterna de mudar o mundo. a rebeldia que surge na madrugada e a dor no pescoço de dormir quando já nem é mais noite. o café da manhã porque tudo vira manhã depois de fazer amor. o galope da égua que se chama fada e por isso tem asas. a mágica que se esconde em todo instante. o momento que chega de mansinho. as asas que moram num sapato. as virtudes em rebelião fora da gaveta trancada. o cofre sem senha. água. muita água. o relógio que parou quinze para as nove e continua na prateleira. a fantasia guardada para os próximos carnavais não esperados.  a purpurina daquela mesma caixinha.o auto-carnaval. a marcha fúnebre que acompanha o cavalgar do calendário. o choro do recém nascido que subli-nha ou será sublima(?) todos os fins. the long island sound. tudo costurado no botão do vestido de um verão.



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

trégua ou desvio

o tempo e o sol . o parênteses que há em todo meio dia.
o agora está esgarçado.o agora está amarelo.
a vida em curvas e a precisão.há sempre o medo do desvio.
da seta em desatino.e a interrogação.o que é construção?
e o que desmancha no ar? sol também é música.
agora sempre não é mais.e é de novo.e é de novo.e não
o que resta é a linha.o tempo em desalinho.ponto em companhia é reticência.
a estrada está aberta.o ônibus avança o sinal.o homem atravessa.no Egito há guerra.eu.aqui.meu chapéu.e a espera.o tempo e o sol.a nuvem e tudo o que há,a angústia de uma escolha.e o alívio que dá.

na parede branca.um risco.
meu horizonte projetado.
rápido.mais rápido.o infinito é azul.o horizonte está.





domingo, 13 de fevereiro de 2011

vestido inventário ir não me leva daqui



Ir não me leva daqui
adiante
o ritmo nem sempre é  constante
deixar morrer
para  permitir 
ser.


agoranuncamaiséagora
agoraésempreagora

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

instante já


o tempo e a peneira. a seta e o desvio. o esgarçamento e a contemplação. a escolha e o caminho. a lição e a imoralidade. a crença a e as inutilidades. a sutileza e o exposto. a ferida e a marca. o pedido e a surpresa. a beleza escancarada e a discriçao. o essencial e a bobagem. a mensagem e a ausência. a estação e a raiz. a casa e a porta. o ir e o vir. a lua e o infinito. a piada e o não riso. a linguagem e os olhos fechados. a presença e o nunca mais. a fechadura e a parede. a porrada e o discurso. o bolo de chocolate e a ausência de fome. a sagacidade e a falta de foco. o desejo e o deixa pra lá. o talento e a necessidade. a saliva e a coca-cola. a água e a língua. o beijo e o não sente nada. o “tenho certeza” e o “ainda não é ”. o preferido e a sujeira. a máscara e o carnaval. o vestido e o lençol. a sacada e o não precipício. a possibilidade e a incerteza. a dor e o controle. a estadia e a passagem. o sol e a cegueira. o vento e o pulmão. o estômago e o amor.


todos os sábados eu acho que te amo





























A

não é você
nem eu
ali
parados
a caixa de som 
e o vazio do salão
a barba por fazer
a vontade emudecida
a história em ré maior
tudo dentro da camisa de botão
branca
vida é aqui
eu e você
estancando a ferida
a vontade sempre subliminar
a escolha fragmentada
hoje exige urgência
amanhã
nunca mais
calo
o escuro do salão
você guarda o violão
eu recupero meu coração
você é 
meu medo
sim em desagrado com o meu não
é alternâcia
baticum com sonoridade desviada
te quero como nunca 
de repente
quase te amo por um segundo disperso
e aqui
agora
meu nunca é mais intenso

em alguns sábados eu acho que te amo

B
meu samba é um repente
na estrofe do ainda te querer bem
na verdade que minha decisão não escancara
na dúvida se escolha realmente existe
na saudade imensa
na falta de uma canção nascente como ação inesperada
na minha letra nesta madrugada
na sua melodia afiada
nessa noite desprogramada
a nossa voz
permanece calada
a minha verdade dorme
na tua agonia
o te amo que nunca e o que há
a distância escancarada
aqui
e nós
ali
do outro lado
como equilibristas do que cismamos em chamar
de nunca mais

todos os sábados eu acho que te amo.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

missing herself

segurava o choro algumas vezes ao dia
se auto medicava com caramelos
recheados de menta
com chocolate
preferencialmente aos fins de tarde de vento frio
saboreava-os
com saudade
tinha saudade
muita 
saudade 
de vocês
enquanto digeria
o resto de tudo que não
era caramelo
o amor ali tinha virado um excesso
e voltar para onde estava era um luxo que não cabia mais
por isso mastigava o luxo adocicado 
em substituição de tudo que deixara para trás
quando criança ouvia contar que todos aqueles centímetros crescidos non stop aconteciam durante o sono
de repente já tinha 1, 50
1,68
1,76
crescer sempre foi indolor e de olhos fechados
fez,acredite,até natação para crescer mais
muito mais
e agora essa coisa de crescer por dentro
a maturidade em um dia
a disposiçao de um atleta para persistir
o acompanhamento dos batimentos que devem permancer ativos e sem disparar
desapego da saudade que dava de ser baixinha
descontrole,ela pensa, é paralisia.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

a estrangeira de camisa branca ou dubrovnik é uma terra branca

o tempo esgarçado por ali. a moça estrangeira dorme. dorme de bruços, com uma camisa quente e branca, na esperança subliminar de apaziguar os sentimentos mais intensos que a abatem. sim, ela está abatida, tem olheiras fundas e pouca cor de sol, desde que teve que desviar da placa SIGA para a RECOMECE. sabe que é temporário, mais uma dessas questões onde o tempo se apresenta como o único fiel escudeiro, e afinal, como tudo na vida é mesmo temporário e  passageiro, recomeçar nem soa tão estranho assim. ela também conhece o  ditado oriental que diz mais ou menos a mesma coisa de quando contam com voz mansa e incentivadora, que um leão antes de saltar dá três passos para trás. nunca conferiu essa informação , nunca viu isso nos programas do discovery , mas sempre optou por esta crença , afinal dá-se mesmo muitos passos para trás ao longo de qualquer jornada ou mesmo durante o dia. 
a camisa quente serve para abraçar o corpo que grita escandalosamente pedindo qualquer coisa diferente de tudo que anda se apresentando nesse agora. sempre acreditou que um banho quente acorda com mais carinho  do que um banho de água fria. carinho para ela é fundamental , premissa básica para acordar de verdade. talvez por isso goste tanto de fazer amor pela manhã. outro dia conheceu um moço de olhos verdes ( ou eram azuis?  quando ela fecha os olhos para lembrar, não tem a certeza exata da cor - e  aproveitando o parênteses aberto - certeza tem exatidão? ) que tem o raciocínio sem pontuação que nem o dela. ele não usa vírgulas, pontos finais, é tudo em disparada, no máximo com uma interrogação, não muito firme, que até perde o posto de interrogação. é mais uma construção no final da frase, sugerindo uma interação com o interlocutor, do tipo :"é isso, compreende? "
aliás era aí também que eles se encontravam , a semi interrogação dominava o universo de ambos.  eram um conjunto de interrogações. ela poderia se apaixonar por ele mas não, não se apaixonou. sempre que o encontrava achava que isso poderia estar prestes a acontecer, mas não acontecia nunca e não aconteceria jamais, ela também sabia disso. ela vivia a beira. a beira de. e para  confortar-se, preferia isso do que estar à deriva.
talvez fosse justamente por estar com o coração vazio  que ela também dormia com uma camisa quente, ou para lembrar que podia voltar a gostar de alguém com uma intensidade nunca experimentada. por enquanto alguém ainda dormia na sua cama , por mais que eles não fossem mais  verdadeiramente um casal. outro dia subindo a escada rolante se flagrou pensando no desejo que tinha , lá pelos 20 e poucos anos, quando descobriu ser a outra do moço com quem andava namorando. sua maior vontade era que ele passasse um dia inteirinho conhecendo seu quarto, e mais precisamente sua escrivaninha. queria abandona-lo lá, a mercê daquele mundo de pequenos papéis, direcionando-se pela própria curiosidade, esmiuçando todas as pequenas coisas daquela moça estrangeira, suas delicadezas, vestígios, esconderijos, pequenos tesouros  não expostos nas caixas que ocupavam metade do tampo de vidro. alimentava secretamente que ele a descobrisse assim, como um antropólogo de detalhes subliminares . acreditava nitidamente que só assim - só assim gostava de repetir- quando eles fizessem amor novamente, ele estaria mesmo com ela, no mais alto grau de entrega e intimidade. isso nunca aconteceu. aquele homem era casado e o quarto estrangeiro não comportava alguém metade inteiro. hoje o homem que dorme em sua cama não é ainda o homem que saberá sua entrelinhas.  não basta abrir as caixas e vasculhar papéis, é preciso enxergar o entre, o excesso que mora nos espaços vazios. o quarto que ela está é grande,branco, a janela de vidro está embaçada e esconde a vista para uma floresta verde, que não aparece, mas está ali, e muito verde. seu pensamento continua desviado,  refletia sobre o esgarçamento do tempo diante das suas crises que pediam urgência e foi desaguar nos pensamentos afetivos - pensamentos tolos e subitamente essenciais para fazê-la levantar, tomar seu café e seguir na estrada do recomeço. a placa está sem instrução, ela pega o giz,  branco  assim como sua camisa quente e seu coração calmo e caminha em linha reta-----------------------------------é certo que

há vida nos espaços abertos.

foto de felipe felizardo
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